PRÉ-SOCRÁTICOS E A NATUREZA DA FILOSOFIA
I
OS PRÉ-SOCRÁTICOS E A NATUREZA DA FILOSOFIA
A filosofia ocidental nasceu na Grécia antiga, cerca de 500 anos antes
de Cristo. Há quem diga que a filosofia é muito mais antiga. Para alguns ela
nasceu na China há cerca de 1000 anos antes de Cristo, com o I Ching, o
chamado Livro das Mutações, que foi um livro de adivinhação e de
sabedoria oracular redigido em muitas camadas por muitos autores durante
diversas eras. Para outros ela teria nascido na Índia há cerca de 1500 anos
antes de Cristo, originando um grupo de tradições filosóficas e religiosas cujo
principal objetivo era orientar a vida humana.
A filosofia, tanto ocidental
quanto a oriental, teve origens místicas. Como resultado disso temos uma
desagradável confusão entre filosofia e sabedoria de vida, que mesmo hoje é
comum entre leigos. Confunde-se filosofia com alguma disciplina mística, quase
religiosa, enquanto a filosofia acadêmica, como resultado de uma especulação
coletiva de comunidades de conhecedores sedimentada sobre uma tradição milenar,
pouco tem a ver com sabedoria de vida, tendo se tornado hoje uma investigação
aparentemente esotérica e inacessível ao público leigo.
É interessante lembrar nesse
contexto a opinião de Hegel, para quem a filosofia, tal como hoje a concebemos,
se originou realmente na Grécia antiga e não no oriente. A razão por ele
aventada é que a filosofia oriental não se diferenciava suficientemente da
religião. Com efeito, essa filosofia se encontrava mais próxima de uma forma de
sabedoria, de um aconselhamento sobre o bem-viver, de uma forma elevada de
autoajuda, enquanto a filosofia nascida com os filósofos pré-socráticos se
ocupava de argumentos críticos desenvolvidos por pessoas que conheciam a
ciência da época e que buscavam substituir o legado do pensamento mitológico
por um questionamento especulativo que prefigurava o pensamento científico. A
opinião de Hegel pode ser exagerada, mas há nela algo de verdadeiro.
Para entender o nascimento da
filosofia ocidental precisamos considerar o trabalho dos filósofos
pré-socráticos, assim chamados por terem aparecido antes de Sócrates e por
terem preocupações filosóficas cosmológicas, muito diversas das preocupações
morais de Sócrates. Eles foram os primeiros a terem surgido na Grécia, em um
período que vai do século VI ao século V antes de Cristo. O principal objetivo
desses filósofos era encontrar um princípio originador e sustentador de tudo o
que existe, a assim chamada arché. Esse princípio pertencia à natureza (physis),
daí o naturalismo dos pré-socráticos. Eles eram bons cientistas, conheciam
matemática, geometria, engenharia, astronomia. Por isso mesmo, o pensamento
deles, embora incluindo elementos religiosos, caracterizava-se por um
rompimento com o pensamento mitológico que os antecedeu. Seu projeto comum era
o de substituir as explicações mitológicas da natureza e de suas anomalias por
princípios especulativos que pelo menos tivessem a forma de princípios
científicos, uma vez que em tais domínios a ciência como ciência era
impossível.
1
Os milesianos. O primeiro pré-socrático foi o
filósofo jônico Tales de Mileto (647-524 a.C.). Ele também foi um astrônomo e
matemático, tendo previsto um eclipse solar no ano de 585 a.C. Ele acreditava
que a água fosse o princípio de todas as coisas, posto que a vida nasce das
coisas úmidas. O princípio água coincidia com o divino, donde tudo se encontra
pleno de deuses.
Para Nietzsche, Tales foi a
primeira pessoa a ter a ideia de uma unidade na multiplicidade de tudo o que
existe, a intuição original de que tudo é um, de que o universo possui
uma unidade constitutiva e que nós podemos ter, em princípio, acesso cognitivo
a ela.[1]
O esforço no sentido de obter uma compreensão unificadora de todas as coisas
foi característica da filosofia pré-socrática e também dos grandes sistemas da
tradição filosófica ocidental.
A busca da unidade na
multiplicidade tem sido em nossa época reforçada através da noção de consiliência,
que consiste na assunção da existência de uma unidade da realidade. Esse pressuposto é essencial à toda
investigação. Ele faz com que através da investigação nós possamos ter como
princípio orientador a sugestão de que as diferentes ideias, caso verdadeiras,
possam se complementar umas às outras, reforçando-se assim em sua
plausibilidade.
Tales foi sucedido por outros
dois filósofos Jônicos mais jovens do que ele: Anaximandro e Anaxímenes.
Anaximandro sugeriu que o mundo fosse resultado de um elemento indefinido ou,
mais literalmente, do Ápeiron, que se traduz como o ilimitado.
Essa é uma ideia importante por tornar o princípio explicativo das coisas, pela
primeira vez na história da filosofia, algo não perceptível aos sentidos.
Anaximandro (610-546 a.C.) foi
responsável pela ideia de que a terra é um cilindro suspenso entre os Astros,
que não cai nem para um lado nem para outro, pelo equilíbrio das forças. O
filósofo da ciência Karl Popper viu nisso uma antecipação do conceito de
inércia e mesmo o da gravitação. A filosofia dos pré-socráticos atua entre a
mitologia e a ciência e, às vezes, como uma clara antecipação da última.
Anaxímenes (599-524 a.C.), por
sua vez, sugeriu que o princípio originador e constitutivo fosse o ar. Afinal,
não podemos permanecer vivos sem respirarmos. E disso ele supôs que o mundo
inteiro, tal como um ser vivo, também fosse dependente da existência do ar para
subsistir. Como explicou em um dos fragmentos:
Como nossa alma, que é ar, nos governa e mantém
unidos, assim também o vento e o ar, que são o mesmo, mantém unido o universo
inteiro.[2]
Anaxágoras (500-428 a.C.), nascido na Jônia, foi outro importante
filósofo pré-socrático. Ele é visto como o introdutor do conceito de mente em
filosofia. Ele entendia a Arché como sendo o nous, ou seja, a
mente ou pensamento. Para ele a mente era algo que embora fosse material era
absolutamente puro:
A mais fina e pura de todas as coisas, que possui todo
o conhecimento de todas as coisas e o maior poder.
A mente seria uma força infinita que, agindo sobre a matéria informe, dá
origem a tudo o que existe nesse mundo.
Anaxágoras foi também o
defensor da versão pré-socrática da teoria do Big-Bang. Segundo ele, no começo
todo o universo se encontrava comprimido em um átomo primordial:
Todas as coisas estavam juntas, infinitamente pequenas
em número e pequenez, pois o pequeno era infinitamente pequeno. E como estava
tudo unido nada era reconhecível devido à pequenez.
Para Anaxágoras esse ínfimo átomo era como que um plasma indiviso, posto
que misturava tudo no infinitamente pequeno, fazendo com que nada mais fosse
distinguível. Esse átomo primordial começou a girar com força cada vez maior,
jogando para fora de si o éter e o ar e formando as estrelas, o sol e a lua.
Essa rotação fez com que os elementos se separassem, mas isso nunca aconteceu
por completo, de modo que cada coisa preserva em si algo de todas as demais
(atualmente dizemos que também possuímos em nossos corpos átomos das estrelas).
Essa expansão do universo existe hoje e continuará existindo sempre. E com isso
também outros mundos semelhantes ao nosso podem ter sido gerados, com sol e lua
próprios e habitados por criaturas tão inteligentes quanto nós.[3]
Em meio a tudo isso a única
coisa que continua a mesma e que tudo move é a mente. Nesse último ponto seu
Big-Bang difere do nosso, uma vez que preferimos substituir seu conceito
animista de mente pelo de leis fundamentais da natureza.
2
Princípios múltiplos. Outros filósofos pré-socráticos entenderam a arché como sendo
múltipla. Assim, os seguidores de Pitágoras, tendo percebido que tudo na
natureza possuía quantidades e formas, concluiu que os números eram o princípio
fundamentador do universo. Eles seriam o fundamento, começando do número um,
que é base da aritmética, e do ponto, que é base da geometria. Com base na
matemática os filósofos pitagóricos formaram uma seita que objetivava explicar
não só o universo, mas também a vida humana. Eles acreditavam na doutrina da
transmigração das almas que influenciou o pensamento de Platão.
Também acreditavam em
princípios múltiplos os filósofos atomistas, que foram Leucipo e seu discípulo
Demócrito (460-370 a.C.), do qual restaram muitos fragmentos, além de Epicuro
(341-270 a.C.), um filósofo grego da época helenista. Para Demócrito o mundo é
constituído do que ele chamou de átomos, que são partículas invisíveis,
indivisíveis, com solidez e impenetrabilidade, tamanhos e formas diversas e
infinitos em número. Eles constituem todas as coisas visíveis. Afora os átomos,
só o que existe é o espaço ou vazio. Os átomos se movem e se chocam uns contra
os outros segundo leis deterministas. Como consequência, os atomistas foram os
primeiros filósofos distintamente materialistas. Mas isso não os impedia de
acreditarem no espírito, pois as almas humanas poderiam ser entendidas como
constituídas de átomos extremamente sutis. Assim, quando sonhamos com um
antepassado morto pode ser porque os átomos constitutivos de suas almas
penetraram em nossas cabeças enquanto estávamos dormindo, interagido com os
átomos de nossas almas.
É importante notar que os
atomistas estavam antecipando a possibilidade de descobertas científicas que
ocorreram mais de dois mil anos depois. Elas foram o que em sua memória
decidimos chamar de átomos, que compõem a tabela periódica, mais tarde
substituídos por partículas subatômicas indivisíveis chamadas de elétrons,
quarks, gluons e fótons. Mesmo que eles de maneira alguma pudessem antecipar a
física das partículas tal como ela é hoje estabelecida, eles anteciparam a
ideia de que o universo deveria ser formado por partículas invisíveis discretas
móveis e possuidoras de massa. Não deixa de ser impressionante que após mais de
dois mil anos a ciência tenha demonstrado que as especulações dos atomistas
eram corretas.
Além das especulações
cosmológicas, a maior parte dos fragmentos deixados por Demócrito foram
instrutivos ditames morais, muitos deles ainda hoje aplicáveis. Por exemplo:
É esforçar-se em vão querer trazer entendimento a quem acredita tê-lo.
Os insensatos tornam-se razoáveis pela desgraça.
A beleza do corpo é animalesca se não for dignificada pelo entendimento.
Quem procura o bem atinge-o com dificuldade. O mal, porém, atinge mesmo
aquele que não o procura.
Ao homem sábio todas as terras são acessíveis, pois a pátria de uma alma
virtuosa é o universo.
Em verdade, porém, nada sabemos, pois no abismo encontra-se a verdade.
É curioso notar que esses dísticos valem hoje tanto quanto valeram há
2.500 anos atrás. Parece que o ser humano em certos aspectos pouco ou nada
aprendeu com os erros de seus antepassados.
Um outro pré-socrático
pluralista que merece ser citado foi Empédocles de Agrigento (florescido em 450
a.C.), que se considerava um deus e que segundo a lenda deu fim a sua vida
atirando-se na cratera do Etna. Ele foi um precursor de Darwin ao sugerir
especulativamente que as espécies se desenvolvem através de uma luta na qual
seres que por acaso nascem com as mais diversas características entram em
disputa de modo que só os mais aptos sobrevivem. Para ele os seres vivos se
originaram do mar e o ser humano em tempos primevos deveria ser muito
diferente, considerando que hoje ele precisa de anos de completa dependência
dos pais para poder sobreviver por si mesmos, diversamente dos animais.
Ele foi o inventor da ideia de
que o universo é constituído por quatro elementos (raízes) que ele encontrou em
filósofos anteriores. Esses elementos originários são a água (Tales), o ar
(Anaxímenes), o fogo (Heráclito) e a terra (Xenófanes). Eles são imutáveis e
combinam-se uns aos outros de modo a formas o universo visível. Essa teoria foi
aceita até o século XVII, quando químicos como Robert Boyle fizeram-na cair por
terra.
Para Empédocles atuam sobre os
quatro elementos duas forças físicas, que ele chamou de harmonia (o amor) e
discórdia (o ódio). A ação alternada dessas duas forças faz com que o universo
sofra um processo cíclico de mudança através do qual de tempos em tempos tudo
se repete. Assim, no início de um ciclo os elementos se encontram todos
perfeitamente misturados, os objetos não existem e a força imperante é a da
harmonia em toda a esfera do mundo, que forma um todo homogêneo. Mas a força da
discórdia logo penetra na esfera do mundo e começa a agir separando os
elementos e formando os objetos hoje conhecidos, até quando terra, ar, água e
fogo se tornam completamente separados. Nesse ponto a força da harmonia começa
a agir novamente, misturando pouco a pouco outra vez os elementos, até o
retorno ao estágio inicial de perfeição, quando inicia-se um novo ciclo pela
força da discórdia... Em seu tempo Empédocles acreditava estarmos em um estágio
intermediário, em que as forças da discórdia agem de maneira cada vez efetiva.
A doutrina cíclica de
Empédocles foi sugerida pela observação dos acontecimentos cíclicos no mundo.
As estações do ano são cíclicas: vemos as árvores florescerem e darem frutos na
primavera e no verão, para então perderem as suas folhas no outono secando no
inverno, só para florescerem de novo no próximo ano. Os seres vivos são gerados
sem forma, crescendo e se diferenciando até envelhecer e, na morte, tornam-se
outra vez matéria informe.
A ideia de um mundo cíclico foi
famosamente reapresentada por Nietzsche sob a forma do que ele chamou de o
eterno retorno. Mas ele o entendia como um experimento psicológico para testar
a autenticidade de nossas atitudes perante a vida.[4]
Para tal ele imaginou que as nossas vidas devessem se repetir identicamente nos
mais ínfimos detalhes um número infinito de vezes. Se alguém aprovasse o eterno
retorno, querendo que cada experiência de sua vida, cada prazer e desprazer,
cada pensamento e decisão, retornasse outra vez e assim infinitamente, essa
seria a prova de uma atitude absolutamente afirmativa diante de sua existência.
Finalmente, a ideia de um
mundo cíclico nada tem assim de tão absurda. Ela tem sido presente na
cosmologia contemporânea: para alguns astrofísicos o Big-Bang é para ser
seguido pelo Big-Crunch e assim sucessivamente. Existe, pois, até mesmo
uma versão atual daquilo que Empédocles propôs de forma puramente especulativa.
3
Heráclito. Quero me deter em Heráclito e
Parmênides, que foram os mais impressionantes filósofos pré-socráticos. Na
antiguidade eles eram considerados opostos, pois Heráclito enfatizava a mudança
e Parmênides a imobilidade. Mas veremos que nem por isso eles se opõem
verdadeiramente, posto que por detrás da mudança Heráclito enfatizava a unidade
da razão, que pode ser comparada ao Ser de Parmênides.
Heráclito (florescimento 500
a.C.), como Nietzsche, Wittgenstein, e ainda outros, foi um filósofo que se
exprimia por meio de aforismos. Muitos desses aforismos são profundos e nos
dizem algo ainda hoje. Eis alguns deles:
A harmonia
invisível é mais forte do que a visível.
O que está em cima
é idêntico ao que está embaixo.
A natureza ama
ocultar-se.
Tudo se faz por
contraste; da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia (como a do arco e
da lira).
A harmonia
invisível é mais forte que a visível.
Jamais encontrarás os confins da alma, tão profundo é o seu logos.
Heráclito pertencia à nobreza hefésia. Foi um pensador de índole
aristocrática, misantropo, melancólico, mas profundo e poético. Expressava-se
por meio de aforismos de tom profético. Seus dísticos eram intencionalmente
obscuros, de modo a não ser falsamente compreendido por mentes superficiais.
Ele desdenhava o homem comum, para ele prisioneiro da opinião e incapaz de agir
racionalmente.
Heráclito era um elitista no
que concerne aos seres humanos. Embora a razão seja um bem comum a todos, para
ele poucos fazem uso dela:
A despeito do logos ser comum a todos, o vulgo vive
como se cada um tivesse um entendimento particular; não sabe nem escutar nem
falar.
As opiniões dos homens são jogos de crianças.
Heráclito, ao que parece, era também um filósofo capaz de odiar em
medida pouco comum, como demonstram seus aforismos desdenhosos acerca de seus
concidadãos. Faço aqui apenas uma breve seleção deles:
Os porcos preferem
a lama à água limpa.
Os cães ladram
para o que desconhecem.
Tudo o que rasteja
merece ser chicoteado.
Um para mim vale mil se for o melhor.
Asnos preferem a grama ao ouro.
Se você quiser ofender alguém gravemente sem precisar lançar mão de
palavrões, basta se lembrar de algum desses aforismos.
Heráclito foi o filósofo do
conflito. Para ele o conflito entre os opostos é necessário, pois é dele que
nasce a mais bela harmonia. Ele considerava as guerras necessárias:
A Guerra é o pai de todas as coisas e de todas o rei;
de uns fez deuses, de outros homens; de uns escravos, de outros homens livres.
A Guerra como solução de conflitos era parte essencial do mundo antigo.
Por exemplo, foi graças à genialidade e astúcia de um general grego,
Temístocles, que a Grécia não foi escravizada pelos persas, permitindo a
continuação da produção cultural grega com o aparecimento de Platão e
Aristóteles. Hegel era um admirador de Heráclito. A ideia hegeliana de que a
razão humana é apenas um momento da razão universal parece ter sua origem em
Heráclito.
Mas não seria a necessidade da
guerra uma ideia ultrapassada, posto que esperamos que no futuro as guerras
deixem de existir? Essa seria uma maneira bastante superficial de entendermos o
que Heráclito quis dizer. Mesmo que as guerras deixem de existir, os conflitos
entres grupos humanos continuarão existindo de forma mais elevada, por exemplo,
como conflito de influências e ideias. Se Heráclito estivesse aqui entre nós
ele diria que a sua ideia de guerra, agora entendida de forma metafórica como
qualquer forma de convulsão social, continuará sempre existindo, dado que é
inerente à vida humana em sociedade.
Outra ideia iconoclasta de
Heráclito é a de que para que exista o bem é necessário que exista o mal, para
que exista a justiça é necessário que também exista a injustiça. Essas
oposições são interdependentes, o que deve desfazer a ilusão escapista de que
possa haver um mundo inteiramente justo e inteiramente bom, ao menos dentro da
perspectiva humana. Essa ideia vale para a sociedade e também para os
indivíduos. Para Heráclito o ser humano é constitutivamente aprisionado ao
conflito, de modo que a possibilidade de que ele se eleve à afirmação de uma
existência para além do conflito é enganosa. De onde se pode concluir que seria
melhor para ele que ele aceitasse o conflito e tentasse superá-lo
conscientemente pela ação ou pela reflexão – aqui um ponto de contato entre
Heráclito e Nietzsche.
Faço uma pausa para lembrar um
livro: O visconde partido ao meio de Ítalo Calvino. Na estória, o
visconde Medardo di Terralba é uma pessoa que na Guerra contra os mouros foi
partido em duas metades por uma bala de canhão. Os cirurgiões conseguiram
resolver o problema separando as metades de modo a formar duas pessoas, dois
viscondes. Mas eles incorreram em um erro, pois um deles herdou a parte má do
visconde, enquanto o outro herdou a parte boa. Aquele que herdou a parte má se
transformou em um psicopata que se divertia em destruir tudo o que era vivo,
belo ou bom. Já o que herdou a parte boa era bom demais. Era ingênuo e esquecia
de si mesmo. Sua namorada logo se cansou dele por considerá-lo tedioso. A
estória termina quando as duas metades se reencontram e entram em duelo.
Curiosamente, durante a luta elas pareciam querer aproximar-se uma da outra.
Feridos, eles caem outra vez nas mãos de um cirurgião competente, que reúne as
duas partes e faz reviver o visconde original. Sem grande surpresa esse novo
visconde passa a ser uma pessoa que age corretamente, na justa medida, ciente
outra vez dos extremos volitivos do bem e do mal que deve manter sob o controle
de sua consciência.
Para Heráclito a Arché
não era a água, nem o ar, nem a terra, mas o fogo, no qual outros elementos se
desfazem. Segundo ele:
Este mundo sempre foi, é agora e sempre será o sempre
vivente fogo, com medidas certas de seu acender e medidas certas do seu apagar.
Para ele sem o conflito o mundo se desfaria em nada. Ele não foi só o
filósofo do conflito, mas também do movimento, da mudança. Como o fogo, tudo se
encontra em movimento, embora preso a medidas determinadas por leis. Também a
vida é tensão, conflito, mudança incessante:
Tu não podes atravessar duas vezes o mesmo rio, pois
novas águas correm sempre por ele.
Mas não entende Heráclito quem acredita que ele queria reduzir tudo ao
movimento e ao conflito desordenado, pois sob o conflito de oposições, existe a
ordem oculta da natureza, imposta pelas leis da razão (o logos) e
alcançável através do pensamento. Para ele é a razão que secretamente domina o
mundo. Heráclito era um panteísta que acreditava que Deus se encontra em todas
as coisas. Mas esse Deus, o Uno, era para ele a própria razão que revela a
identidade na diferença, a unidade no todo e a medida de cada coisa. A razão,
disse ele, é comum a todos, mas o vulgo não faz uso dela, nem os habitantes de
sua cidade, que deveriam ser todos enforcados, nem os grandes poetas como
Homero e Hesíodo.
O fundamento último da
filosofia de Heráclito não está, portanto, no movimento, nem no conflito dos
opostos, mas na ideia da unidade do todo, na ideia de que a razão, que subjaz
ao conflito, é capaz de unificar os opostos e dar lhes proporção e medida. Sob
a perspectiva do Deus que para ele é a razão ou o Uno, todas as tensões são
reconciliadas e as diferenças harmonizadas. Como ele disse:
Para o Deus todas as coisas são justas e boas, mas os
homens sustentam que algumas coisas são erradas e outras certas.
Há também em Heráclito o que me parece uma sugestão acerca da natureza
da filosofia como um saber antecipador da ciência, que ele apresenta na forma
do saber adivinhatório do oráculo. Eis como ele o expõe:
A sibila, que com sua boca delirante diz coisas sem
alegria, sem ornatos e sem perfumes, mas atinge com sua voz mais de mil anos,
graças ao deus que está nela.
Esse juízo de Heráclito sobre a sibila era na verdade sobre seus
próprios pensamentos. Ele também se aplica ao que de melhor foi feito na
história da filosofia. Muito da filosofia pré-socrática metaforicamente
antecipa o que será futuramente tematizado em maior rigor e detalhe por outros
filósofos ou mesmo descoberto pela ciência. Por isso a filosofia tem sido
chamada de o berçário das ciências, ou ainda, de o guardador de lugar da
ciência.
4
Parmênides. Talvez o mais influente dentre
os filósofos pré-socráticos tenha sido Parmênides de Eleia (530-460 a.C.), o
fundador da escola eleática. Para ele o princípio, a arché, era o que
ele chamou de o ser. Ele definiu o ser como uma coisa imóvel e imutável.
A ideia central é a de que o ser, o uno, é, enquanto o não-ser, a mudança, o
vir-a-ser, é apenas uma ilusão. Precisa ser assim porque se qualquer coisa vem
a ser então ou ela vem a ser do ser ou do não-ser. Se ela vem a ser do ser
então ela já é, caso no qual ela não pode não ter sido. Mas se qualquer coisa
vem do não-ser, então ela nada é, pois nada vem do não-ser.
Mas o que é, afinal, o ser?
Parmênides apresenta o ser como possuindo uma lista de atributos. Para ele o
ser é incorruptível, nem ele é gerado nem perecível, encontrando-se inteiro em
cada instante. Ele é absoluto, contínuo, indivisível, imóvel e também finito e
redondo, pois a esfera finita era para os gregos o símbolo da perfeição, embora
isso seja melhor entendido como uma metáfora. Em conformidade com o modo de
pensar dos pré-socráticos o ser parmenideano deve, pois, pertencer à physis,
à natureza. E como ele adiciona que o objeto do pensar e do ser é o mesmo,[5]
ele parece estar apontando para o objeto do pensamento verdadeiro. O ser
parmenideano parece tomar o lugar dos deuses do politeísmo, mas perdendo a
qualidade de projeção antropomórfica característica dos últimos. Seu discurso
sobre o ser também poderia estar apontando para as leis da natureza, mais tarde
aproximativamente apreendidas pela mente humana, no que parece possível de ser
encontrada uma proximidade última entre Parmênides e Heráclito.
Parmênides complementa esse
pensamento metafísico-ontológico (i.e., daquilo que é, que existe de maneira
mais geral) com algumas sugestões epistemológicas que dão início a um domínio
de investigação que será desenvolvido mais tarde por Platão e que chega até os
dias de hoje. Ele distingue explicitamente a via do conhecimento da via erro. O
conhecimento diz respeito ao ser enquanto o erro diz respeito ao pretenso
conhecimento do não-ser. O conhecimento do ser é imutável, diversamente do
pretenso conhecimento do não-ser, que advém da aparência, que é o conhecimento
daquilo que aparece aos sentidos e se apresenta como mutável.
Vale a pena transcrevermos aqui
o fragmento principal do poema de Parmênides:
E agora (disse a musa) vou falar: e tu, escuta as
minhas palavras e guarda-as bem, pois vou dizer-te dos únicos caminhos da
investigação concebíveis. O primeiro diz que o ser é e que não pode ser que ele
não seja; esse é o caminho da verdadeira persuasão, pois segue a verdade. O
segundo caminho diz que o que não é, é, e que o não-ser é necessário; essa via,
digo-te, é imperscrutável; pois não podes conhecer aquilo que não é, nem o
expressar em palavra.[6]
Filósofos posteriores, tanto materialistas como idealistas, foram
influenciados por Parmênides. Assim, os atomistas, que eram materialistas,
acreditavam que os átomos eram o ser, pois estes eram imutáveis e
indestrutíveis. Já Platão acreditava que o ser eram as ideias imutáveis e
indestrutíveis, existentes em um mundo puramente inteligível e superior ao
mundo material.[7]
Os discursos de filósofos como
Heráclito e Parmênides nos impressiona mesmo hoje, mas o que eles significam
possui muito de enigmático, tendo por isso mesmo suscitado inúmeras
interpretações. O poema de Parmênides pode ser interpretado como uma
antecipação metafórica e sincrética do que será mais tarde desenvolvido por
outros. Considere, por exemplo, o que os lógicos depreenderam do poema de
Parmênides. Eles perceberam que ao dizer que o ser é e que não pode não ser ele
estava vislumbrando os princípios da identidade e da não-contradição mais tarde
tematizados por Aristóteles.
O efeito tão sublime quanto
ofuscante do poema de Parmênides parece ser o resultado da condensação de
ideias diversas, mas relacionadas, vagamente expressas em algumas poucas
linhas. Há no ser parmenideano um resquício da religião, dado que ele possui
ainda características divinas, como as de ser eterno e indestrutível. Mas ele
também possui características lógicas, por antecipar os princípios da
identidade e da não contradição. Afora isso, ele distingue conhecimento de
erro, constrangendo-nos a buscar a verdade no lugar da falsidade, a qual não
pode sequer ser dita sem revelar a sua natureza.
5
Os filósofos pré-socráticos se distinguiram por terem substituído as
explicações mitológicas por especulações metafísicas que possuíssem o que
poderíamos chamar de a forma da teorias científicas, entendendo-se por
isso ideações especulativas que detém suficiente analogia com as últimas, cuja
criação é motivada por conhecimento prévio da natureza da investigação
científica. É isso o que há em comum entre o atomismo especulativo de Demócrito
e a teoria atômica da microfísica contemporânea, ou entre a especulação de
Anaxágoras e a presente teoria cosmológica do Big-Bang. Eles tiveram a ideia de
substituir a antiga explicação do cosmo por meio de deuses pela explicação
através de princípios especulativos que eles mesmos não tinham como avaliar,
dado a insuficiência de meios e informações que lhes permitissem resultados
precisos em um domínio de investigação ainda não existente.
Tais especulações só se deram
porque esses filósofos foram profundamente influenciados pelas ciências que
eles conheciam e cujo desenvolvimento já se iniciava na Grécia antiga. Havia a
matemática importada do Egito e da Babilônia, como o caso da geometria,
considerada pela primeira vez pelos gregos em abstração de suas aplicações, o
que permitiu que ela fosse axiomatizada no trabalho que culminou com a obra de
Euclides intitulada Os Elementos. Havia o conhecimento de astronomia
tomados dos egípcios. Platão já acreditava que a terra se movia. Sabemos, por
exemplo, do notável feito de Erastótenes (circa 300 a.C.). Ele conseguiu
medir o diâmetro da terra com razoável precisão, sabendo que ela era redonda.
Ele mandou colocar duas estacas ao meio dia, separadas mais de mil quilômetros
uma da outra. Uma delas fazia uma sombra maior do que a outra, devido à circunferência
da terra. Tomando como comparação as medidas dos triângulos formados pelas
estacas e suas sombras, ele conseguiu calcular com certa precisão a
circunferência da terra, um feito extraordinário que foi esquecido nos séculos
seguintes. Havia também um conhecimento de engenharia e de rudimentos de
física, como pode ser ilustrado pela lei de Alavanca de Arquimedes (287-222
a.C.) ou por sua medição da massa específica de diferentes substâncias,
estabelecida pela relação entre o volume de água por elas deslocado e o peso. É
assim evidente que os gregos já estavam cientes da imensa vantagem teórica e
prática que só o conhecimento científico é capaz de trazer.
6
Auguste Comte. O estudo dos pré-socráticos nos oferece uma excelente
oportunidade para investigarmos a natureza da filosofia. Quando nos perguntamos
sobre o que os pré-socráticos estavam fazendo e sobre a natureza da filosofia
em sua relação com a ciência, alguma luz pode ser trazida pela consideração da
assim chamada “lei dos três estados” desenvolvida por Auguste Comte
(1798-1857), o mais importante filósofo francês do século XIX.
A chamada lei dos três estados
da evolução da civilização, já antevista por outros, foi desenvolvida por Comte
em seu Curso de filosofia positiva.[8]
Esses estados são o teológico, o metafísico e o positivo.
Quero no que se segue interpretar lei tal como ela ainda pode ser reconhecida
como plausível. Em adição a isso observo primeiro que não se trata de uma lei
no sentido mais estrito, mas de uma regularidade tendencial. Trata-se da
identificação de uma vaga sucessão de três estados, que tendem a se sobrepor de
modo parcial e irregular no desenvolvimento da civilização. Eis como Comte a
apresenta:
A lei consiste em que cada uma de nossas principais
concepções, cada ramo de nosso conhecimento, passa sucessivamente por três
diferentes estados teóricos: o estado teológico ou fictício; o estado
metafísico ou abstrato; o estado científico ou positivo. Em outros termos, o
espírito humano, por sua natureza, emprega sucessivamente, em cada uma de suas
pesquisas, três métodos de filosofar (...)[9]
O estado teológico é aquele no qual as anomalias da natureza (seus
imprevistos) são explicadas pela intervenção de projeções antropomórficas
chamadas “deuses”. Tendencialmente ele começa com o fetichismo, caracterizado
pelo animismo, a ideia de que objetos inanimados também são deuses. Ele passa
então ao politeísmo, no qual certo número de deuses concorrem na explicação das
anomalias da natureza. Nesses dois subestados cada anomalia pode ser explicada
por um deus diferente, não se impondo a questão de unificar suas causas. Essa
unificação só é realizada no terceiro subestado, o do monoteísmo, que se
caracteriza pela crença na existência de um único Deus. Isso permite uma
explicação unificada do mundo, ainda que antropomórfica. Para Comte, o estado
teológico corresponde à infância da humanidade. Ele é repetição do que ocorre
no crescimento cognitivo do indivíduo humano, correspondendo à sua infância, ou
seja, ao estado no qual a criança acredita na existência de fadas, bruxas e
gnomos.
O estado metafísico é o que faz
a transição entre os estados teológico e positivo. Nele os seres humanos buscam
substituir os seres sobrenaturais por entidades abstratas em uma passagem do
imaginativo para racional. O Deus sobrenatural deve ser substituído por algo
que possa servir como princípio explicativo único para todo o universo. Ele é
um estado intermediário entre o religioso e o científico.
Os estados religioso e
metafísico são para Comte importantes por motivarem os seres humanos a buscar o
conhecimento científico quando ele ainda não é possível. Assim, o ser humano
persistiu observando os movimentos dos astros por milhares de anos quando
buscava através disso meios de prever o futuro. Ora, foi só essa crença
supersticiosa que permitiu que se chegasse a descobertas astronômicas reais,
desde a medição, distinção e previsão dos os movimentos das estrelas e
planetas, do geocentrismo de Ptolomeu, até mais tarde a ruptura que consistiu
no heliocentrismo de Copérnico, nas leis de Kepler e nas descobertas de Newton.
Sem um longo estado de especulação pré-científica nada disso poderia ter
ocorrido. Para Comte esse foi o momento da adolescência da humanidade. Em
termos de desenvolvimento cognitivo do indivíduo trata-se realmente da
adolescência, na qual os jovens se comportam como aprendizes de feiticeiros,
acreditando tudo saber sem terem aprendido o suficiente. (Piaget identificou a
característica metafísica do adolescente com o domínio intuitivo da lógica
proposicional.)
Fazendo abstração de qualquer
tentativa de datar os estados[10]
a consideração do estado metafísico nos auxilia na compreensão do que os
filósofos pré-socráticos estavam fazendo, pois os princípios ou Archai
por eles buscados encontravam-se de algum modo entre os deuses da mitologia e
as leis naturais. Podemos aqui distinguir duas espécies teóricas de Archai,
digamos, as excessivas e as escassas. As excessivas são as que
adicionam a entidades naturais propostas como formas de leis entidades com vida
e consciência própria semelhantes aos deuses. As escassas são as que se
restringem a entidades naturais propostas e formas de leis, sem a adição de
entidades supernaturais. Os pré-socráticos são os melhores exemplos de
filósofos metafísicos no sentido proposto por Comte porque suas Archai
apresentam o inteiro espectro, já que eles estavam enfadados da mitologia e
aspiravam a ciência sem ter condições de alcançá-la, disso resultando suas
especulações. Assim, a água de Tales era um princípio exuberante: ela funciona
como se fosse uma lei natural a possibilitar a vida, encontrando-se ao mesmo
tempo repleta de deuses. O ar de Anaximandro era necessário à respiração e,
portanto, à vida. Em Empédocles os quatro elementos eram regidos pelas forças
do Amor e do Ódio, que apesar de receberem nomes de afetos eram físicas,
regulando nomologicamente o curso cíclico do universo. Para os pitagóricos
esses princípios eram números e formas tornadas exuberantes, posto que não só
satisfazem relações matemáticas e geométricas, mas que devem determinar o
destino dos seres viventes. O ar de Anaximandro é uma Arché que permite,
pela sua respiração, fazer o homem e o universo viverem, sendo também espírito,
ainda que menos exuberante. O mesmo acontece com a mente de Anaxágoras. Aqui o
papel do psicológico é menor, posto que essa mente deve pertencer à physis;
ainda assim trata-se de um princípio espiritual capaz de comandar o curso do
universo. Exemplos de Archai escassos, elementos ou formas de leis não
espirituais, são os átomos de Demócrito, o Ápeiron de Anaxímenes, o fogo de
Heráclito e o ser de Parmênides. Neles o aspecto espiritual tende a
desaparecer, permanecendo alguma coisa vaga e obscura, uma forma que toma o
lugar de uma inalcançável compreensão do todo. Princípios metafísicos
fundamentadores da realidade como um todo continuaram sendo propostos ao longo
de toda a história da filosofia. Assim, Platão tinha as ideias, Aristóteles a
substância, os medievais tinham o Deus dos filósofos, Leibniz tinha as mônadas,
Kant tinha o noumenon, Hegel tinha o absoluto, Heidegger tinha o Ser,
Wittgenstein tinha o indizível... Sob essa perspectiva o período metafísico foi
mantido até a primeira metade do século XX, em variação com a perspectiva
positivista de Comte.
O último estado é o científico
ou positivo. Aqui o ser humano substitui a pergunta pelo “porquê” pela pergunta
pelo “como”. Ele desistiu de buscar princípios últimos explicativos de todo o
universo, contentando-se em buscar relações fixas entre os fenômenos
observados, ou seja: leis da natureza. Ao invés de buscar por uma verdade
absoluta o ser humano passou a buscar verdades por meio de aproximações
sucessivas, consciente de poder sempre estar errado. Essa seria a fase adulta
do desenvolvimento da humanidade, correspondendo, na psicologia do crescimento
individual, ao homem adulto.
O ponto importante é que se
Comte estiver certo então a filosofia, compreendida pelo que ele chama de metafísica,
deverá ser toda ela em algum ponto substituída pela ciência.
7
A lei dos três estados precisa ser complementada pela classificação das
ciências particulares feita por Comte, uma vez que os estados religioso e
metafísico antecedem o nascimento de cada uma delas e que elas nascem em
sucessivamente, em dependência uma da outra.
Para Comte as ciências
particulares podem ser classificadas segundo a sua generalidade e segundo a sua
complexidade. A generalidade opõe-se a complexidade e vice-versa. Quanto mais
geral é uma ciência, mais simples ela é em seus princípios. Quanto mais
complexa é uma ciência, menos geral ela é. Alterando um pouco a lista de Comte
das ciências particulares nós chegamos ao seguinte quadro:
PSICOLOGIA
BIOLOGIA
QUÍMICA
FÍSICA
Maior simplicidade
A física é a ciência de maior simplicidade quanto aos princípios. Em
compensação suas leis devem se aplicar ao universo inteiro. A química diz
respeito a combinações entre os átomos. Ela se aplica ao fenômeno emergente que
são os compostos químicos que existem na terra, mas não se aplica a maior parte
do universo, que não permite a composição química mais complexa. A biologia se
aplica à vida, um fenômeno emergente relativo aos reinos animal e vegetal, que
cobrem parte da terra. A psicologia diz respeito apenas aos seres vivos
conscientes, capazes de vida mental, o que é mais um fenômeno emergente, não se
aplicando aos vegetais. E a sociologia só se aplica aos seres vivos conscientes
capazes de se reunir na formação de sociedades complexas e podemos nos
perguntar se essas sociedades não são também um fenômeno emergente. Há um
grande número de outras ciências, mas elas são derivadas, por exemplo, a
geologia, que usa conhecimentos da física, da química, da biologia, etc. com o
objetivo de estudar rochas. A astronomia (que Comte erroneamente considerava
uma ciência particular) aplica conhecimentos de física, química, etc. para
estudar o cosmo. A neurociência intenta aplicar nosso conhecimento de biologia,
bioquímica, biofísica, etc. para estudar o funcionamento do cérebro...
Importante é notar que a
passagem do estado metafísico para o estado científico se deu no emergir de
cada ciência particular em tempos muito diferentes. A “física” aristotélica
(enquanto física) era puramente especulativa e completamente errônea, tendo
prevalecido até o fim da Idade Média, tornando-se realmente ciência só após
Galileu, no século XVI. Entre as ciências empíricas a física surgiu primeiro,
uma vez que ela é pressuposta pelas outras ciências particulares, mas não as
pressupõe. A química só passou de seu estado metafísico para o estado
científica no final do século XVIII, pressupondo em muito a física. A biologia
só começou a se libertar das especulações durante o século XIX com Pasteur,
pressupondo para seu desenvolvimento o conhecimento de ciências mais básicas,
incluindo invenções como a do microscópio. E a psicologia e a sociologia se
encontram ainda hoje em um estado parcialmente conjectural (metafísico), a
despeito do otimismo de Comte quanto à última. Ciências derivadas como a
neurociência, por sua vez, dependem para seu desenvolvimento de toda espécie de
desenvolvimentos anteriores de outros ciências, inclusive na produção dos meios
de pesquisa. Quando consideramos o que se deu realmente vemos que a lei dos
três estados diz respeito apenas a uma tendência geral de sucessão, não
existindo um tempo histórico para cada estado, visto que eles se sobrepõem de
tal maneira que ainda hoje encontramos resíduos do estado teológico e muito do
estado metafísico, mesmo nas sociedades mais desenvolvidas.
Filósofos em geral sempre
torceram o nariz para as ideias de Comte. Eles se sentiam feridos pelo seu
cientismo positivista, por sua maneira antifilosófica e apressada de substituir
a conjectura filosófica pela ciência. Sartre chegou a dizer que Comte está na
origem do fascismo... Mas isso é bastante injusto. Friamente consideradas,
certas ideias de Comte parecem-nos hoje, em suas linhas gerais, bem mais
plausíveis do que algumas especulações de Sartre, especialmente quando revisada
de uma perspectiva mais ampla e generosa.
7
J. L. Austin. A consideração da lei dos três estados nos leva
diretamente a uma outra ideia, que é a de que a filosofia é uma protociência.
Segundo ela a filosofia é aquilo que é possível fazer antes do surgimento da
ciência. Quando ainda não sabemos o suficiente sobre os métodos a serem
empregados, quando não sabemos sequer quais são os dados que devem ser
considerados mais fundamentais, por isso mesmo não tendo critério para saber
que teoria devemos escolher, o que resulta é uma pluralidade de filosofias.
Essa situação também permite um uso relativamente livre da imaginação na busca
de soluções meramente especulativas. E isso é aquilo que mais caracteriza a
filosofia. Como observou J. L. Austin em uma famosa metáfora que não me canso
de repetir, na qual prepara o terreno para seu plano de retirar da filosofia
uma ciência da interação comunicativa:
Na história da investigação humana, a filosofia tem o
lugar do sol inicial central, seminal e tumultuoso: de tempos em tempos ele
lança fora uma porção de si mesmo para formar estação como ciência, um planeta,
frio e bem regulado, progredindo continuamente em direção a um final distante.
Isso aconteceu há muito tempo atras com o nascimento da matemática, e ainda com
o nascimento da física... Não é possível que o próximo século possa ver o
nascimento, através do trabalho conjunto de filósofos, gramáticos e numerosos
outros estudantes da linguagem, de uma verdadeira e abrangente ciência da
linguagem? Então nós teremos nos livrado de mais uma parte da filosofia (haverá
ainda muitas deixadas para trás) da única maneira pela qual podemos nos livrar
da filosofia, que é chutando-a para o andar de cima.[11]
Austin demonstrou isso na prática. Ele passou os últimos dezesseis anos
de sua vida trabalhando no desenvolvimento de uma gramática dos diferentes atos
de interação linguística, como afirmar, perguntar, prometer, pedir, ordenar,
batizar... disso resultando o que ele chamou de a teoria dos atos de fala, que
hoje é estudada mais nos cursos de linguística do que nos de filosofia.[12]
Esse é o conceito de filosofia como protociência, complementar à visão
de Comte. O sol inicial central e tumultuoso não pode ser melhor descrito do
que na exposição da filosofia dos pré-socráticos.
A questão que resta é se
realmente toda a presente filosofia poderá um dia ser substituída pela
ciência. E ainda outra questão é a de se saber se novas questões nunca antes
colocadas não poderão surgir.
Finalmente, há uma objeção à
ideia de filosofia como protociência que me parece resultar de simples
confusão. Ela foi feita por Anthony Kenny, que observou que pelo menos os
domínios centrais da filosofia, como a metafisica, as teorias do significado e
a ética, continuarão para sempre filosóficas.[13]
O erro está na concepção de ciência usada. A concepção que Kenny tinha em
mente, a mais difundida, provinha do positivismo lógico e se resumia ao emprego
de experimentos verificacionais (Carnap) ou falseadores (Popper), notadamente
os passíveis de repetição. Tais concepções se aplicam quando muito à física,
mas não se aplicam a domínios obviamente científicos como a teoria da evolução,
que não é passível de experimentos repetíveis. Ademais, o que dizer de ciências
como a linguística, a história, a antropologia física? Concepções positivistas
de ciência costumam ser reducionistas, por isso deixando de corresponder ao que
cientistas e pessoas educadas costumam chamar de ciência, que é algo muito mais
amplo. Se quisermos entender a filosofia como protociência tendo tal concepção
em vista a conclusão de Kenny é inevitável. O sol seminal filosófico, naquilo
que ele tem de mais central, jamais poderá dar lugar à ciência.
Há, contudo, uma definição de
ciência não reducionista, que se complementa perfeitamente com a ideia de
filosofia como protociência. Trata-se do que um sociólogo da ciência, John
Ziman, sugeriu. Segundo Ziman, o traço mais fundamental da investigação
científica é que ela é um conhecimento público consensualizável (públic
consensualizable knowledge).[14]
Explicando: o conhecimento científico precisa ser apto à possível obtenção de
consenso pela comunidade de ideias quanto aos seus resultados. Essa é a concepção implicitamente vigente
entre os cientistas. A antropologia física é científica porque a comunidade
científica é capaz de concordar com os seus resultados. A teoria das cordas
pertence à microfísica, que é ciência, porque é ao menos fisicamente possível
que ela venha a obter uma comprovação experimental com a qual os físicos
estejam de acordo. Mas isso não acontece com a astrologia, visto que os
astrólogos jamais conseguiram um acordo sobre seus resultados. E isso não
acontece com a filosofia. Resumindo-nos aos pré-socráticos, não temos como
dizer quem estava certo, se Heráclito ou Parmênides, se Empédocles ou
Demócrito. A pergunta sequer faz sentido.
8
O triângulo filosófico. Há, por fim,
ainda uma outra maneira conhecida de se entender a natureza da filosofia que
nos pode auxiliar.[15]
Vou resumi-la.
A ideia é que filosofia é uma
prática cultural derivada. Um exemplo de prática cultural derivada é a ópera.
Ela é basicamente um resultado derivado de três práticas artístico-culturais
que são: a poesia, o enredo literário e a melodia instrumental junto ao canto
lírico. Tendo em vista a filosofia parece que podemos considerá-la como uma
prática cultural derivada das três práticas culturais mais fundamentais, que
são as práticas religiosa, artística e científica. A filosofia não é
propriamente nenhuma dessas três práticas, mas retira material, métodos e
motivações de cada uma delas. Da prática religiosa ela retira a motivação
mística, visível em sua perspectiva abrangente, como no tradicional e
impossível esforço para explicar o universo como um todo e o lugar do homem
nele. Da prática artística ela retira seu caráter inevitavelmente metafórico,
como visto em seus conceitos fundamentadores (como o ser, a ideia, a coisa em
si, o absoluto...), em suas imagens retóricas, em seus exemplos. Finalmente, da
prática científica ela retira seu objetivo heurístico, além de sua metodologia
formal ou empírica. Com isso podemos construir um triângulo em cujos vértices
encontram-se a religião, a arte e a ciência, encontrando-se a filosofia no
espaço interior do triângulo, como é sugerido abaixo:
Quando consideramos a filosofia dos pré-socráticos encontramos todos
esses elementos. É evidente o elemento estético nos aforismos de Heráclito ou
no poema de Parmênides. Mas Heráclito escreve em tom oracular e o poema de
Parmênides é apresentado por uma deusa contendo o elemento místico. Finalmente,
o Heráclito busca a sabedoria do logos e Parmênides tem por objeto o
conhecimento do verdadeiro, tal como ele pode ser buscado pela ciência. A mesma
combinação podemos encontrar nos outros filósofos pré-socráticos.
Podemos intuitivamente situar
os diferentes filósofos em diferentes locais internamente ao triângulo.
Filósofos que possuem em medida similar elementos místicos, estéticos e
heurísticos podem ser postados no meio do triângulo, a exemplo de Platão.
Filósofos cujo trabalho possui predominância de elementos místicos podem ser
postados próximos ao vértice religioso do triângulo, a exemplo de Hegel.
Filósofos com predominância de elementos estéticos, poetas-filósofos como
Nietzsche, podem ser postados próximos do vértice artístico do triângulo.
Filósofos com predominância dos elementos estético e místico, como Kierkegaard
e Heidegger, podem ser postados próximos à linha de baixo do triângulo. E
ainda, Filósofos com interesses particularmente heurísticos, como Locke,
Russell, Rudolph Carnap e Saul Kripke podem ser postados próximos ao vértice
científico do triângulo.
O triângulo filosófico nos
ajuda até mesmo a classificar as filosofias de diferentes culturas. Filósofos
alemães, desde místicos como Meister Eckhart até filósofos de grande estatura
como Kant, Husserl e Heidegger, geralmente demonstravam proximidade do vértice
religioso, que foi maximamente exemplificada no idealismo absoluto de Hegel. A
filosofia francesa, desde Descartes, mas em um nível extremo no movimento
pós-modernista de pensadores como Foucault, Deleuze e Derrida, possui ênfase
estética, tendendo ao extremo artístico. Finalmente, a filosofia anglo-americano-australiana
põe ênfase no aspecto heurístico, próprio do vértice científico. Basta
considerar exemplos de filósofos como Locke, Russell, W. V-O. Quine, Saul
Kripke, e mesmo, se bem considerados, J. L. Austin e John Searle.
9
A filosofia dos pré-socráticos foi no século V substituída pela
filosofia madura da Grécia antiga, que foi a de Sócrates, Platão e Aristóteles.
Esses, junto a filósofos como Kant, Hume e Hegel, constituem o cânone, se assim
podemos chamar, da tradição filosófica, pela amplitude, coesão lógica e força
imaginativa de seus sistemas. Eles foram tentativas de explicar o mundo e o
lugar do homem nele com base no conhecimento e na cultura de suas épocas.
[1] Friedrich Nietzsche: “Os filósofos Trágicos,
in Os Pré-Socráticos: Fragmentos, doxografia e comentários, col. Os
pensadores, ed. Victor Civita (São Paulo: Abril Cultural 1978), pp. 10-12.
[2] Nas citações dos pré-socráticos fiz livre uso
de G. S. Kirk, J. E. Raven e M. Schofield: The Presocratic Philosophers
(Cambridge: Cambridge University Press 1995), além das traduções que se
encontram em Os Pré-Socráticos: Fragmentos, doxografia e comentários, Col.
Os Pensadores (São (Paulo: Abril Cultural 1973) e de Gerd A. Borheim, Os
filósofos pré-socráticos (São Paulo: Cultrix 1999).
[3] Esse ponto é notado por Anthony Kenny em A
New History of Western Philosophy, (Oxford: Oxford University Press 2004)
vol. I, p 25.
[4] Friedrich Nietzsche: A gaia ciência,
sec. 285, 341.
[5] No poema sentença é: “To gar auto noein
estin te kai einain”. Hussey traduz para o inglês como “The same thing is
there to be thought and is there to be”, que em português fica sendo “a mesma
coisa está lá para ser pensada e para ser”. Ver Edward Hussey: The Presocratics
(London: Gerald Duckworth 1972), p. 84.
[6] Edward Hussey: The Presocratics
(London: Gerald Duckworth 1972), p. 81. G. S. Kirk, J. E, Haven, M Schofield: The
Presocratic Philosophers (Cambridge: Cambridge University Press 1995),
244-245.
[7] Giovanni Reale, baseado em H. Schwabl e Mario
Untersteiner, encontrou em Parmênides os sinais de uma terceira via, a da
opinião plausível (doxa) baseada na experiência sensível, reconhecendo,
porém, a aporia resultante da tentativa de reconciliar essa admissão com a
afirmação de que só o ser imutável e absoluto pode ser conhecido. Ver Giovanni
Reale: História da filosofia antiga (São Paulo: Edições Loyola 1993) pp.
107-116.
[8] Comte: Cours de philosophie positive
(Paris: Rouen Fréres 2830), p 3 e ss. Em tradução portuguesa ver “Curso de filosofia positiva” e “Discurso
sobre o espírito positivo” na coleção Os Pensadores (São Paulo: Abril Cultural
1973), vol. XXXIII.
[9] Course se Phisosophie Positive, Prèmier Lesson, p. 2.
[10] Do ponto de vista de sua
época Comte datou o estágio teológico como anterior à revolução francesa, o
estágio metafísico com estando entre aquela revolução e a queda de Napoleão,
depois disso vindo o estágio positivo. Essa é, porém, uma maneira obviamente
ideológica de se resolver a questão. É melhor admitir uma lenta sobreposição
dos três estados subsequentes, da qual mesmo hoje ainda não saímos.
[11]
1956b/1979: 232
[12] O livro foi publicado depois de sua morte sob
o título de How to Do Things with Words (Oxford: Clarendon Press 1962)
[13] Anthony
Kenny: Aquinas...
[14] Procurei desenvolver em algum detalhe a
concepção de John Ziman no capítulo III de meu livro intitulado The
Philosophical Inquiry: Towards a Global Theory (Langam: UPA 2002).
[15] Ver Claudio Costa: The
Philosophical Inquiry: Towards a Global Theory. (Lohan: UPA 2002)
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